
Clínica do Cruzo
João Víctor Moreira Gonçalves
A palavra "psicologia” deriva da composição entre os radicais gregos psyque e logos. Psyque (a alma), na mitologia grega, é uma donzela que foi transformada em divindade, depois de enfrentar árduas tarefas. A arte nos lembra do percurso rastejante dela como lagarta para depois flutuar na brisa do dia, representando Psyque sempre com um par de asas de borboleta. Na mitologia iorubá, que aqui também chegou e se espalhou, Oyá é a divindade das múltiplas nuances do vento, dentre outros, com o poder mágico de se transformar também em uma bela borboleta. Sabendo que até hoje, corriqueiramente, o cara pálida acompanha a primeira borboleta e tenta de todo jeito cortar as asas da segunda, a ética do trabalho clínico-político transdisciplinar deve ser investir no cruzo. Ginga entre aportes euro-americanos, sabedorias afroindígenas e princípios de nossas políticas públicas. Recompor o trabalho clínico-político transdisciplinar com contribuições da Esquizoanálise, encantamentos de terreiros de matriz iorubá e operadores da Rede de Atenção Psicossocial do SUS. A postura do cruzo tem efeito de encantamento sobre os processos de criação pela atenção e cuidado à coexistência e encruzilhada de atores, modos de saber-fazer, temporalidades, forças e sentidos que, em uma composição dinâmica, seguem as pistas, sustentam e afirmam novas artes da existência que fissuram a mortificação. Fissuram o histórico de epistemicídio, violações de direitos, violências e adoecimentos sociais destacados na pandemia de COVID-19, sobretudo, pelos enfrentamentos de populações vulnerabilizadas. Na medida em que a criação por parte de populações de favelas e comunidades se conjuga com (re)invenções do próprio clínico e do espaço-tempo da clínica, interrogamos: “como a clínica transdisciplinar pode cartografar, dar suporte e fomento aos processos de criação de modos de existências transgressores de normatizações sociais adoecedoras?”. Que essa leitura possa ser um bater de suas e de nossas asas.











